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Underground & Indie

Archive for setembro 2012

De Radiohead a Ney Matogrosso: O músico Guilherme Eddino fala ao Somos O Que Ouvimos

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Foto: Ricardo Bassetti

Quando aos 11 anos de idade Guilherme Eddino, então morador da cidade de Osasco (SP) frequentava as aulas de violão, parecia improvável que o garoto, que detestava as aulas no conservatório musical, cresceria e aos 26 anos lançaria seu primeiro disco solo, com músicas autorais. Pulsar (2012) marca a estreia de Eddino, com parcerias emocionadas e sonoridades variadas. Nesta entrevista ao Somos O Que Ouvimos, o músico multi-instrumentista fala, entre outras coisas, sobre o disco, suas influências, comparação com artistas consagrados e a desvalorização mercadológica da música na era da Internet.

por Talita Lima

Que bandas e músicos mais te inspiraram a se tornar músico e compositor?

Gosto de pensar nos três R da minha vida musical: R.E.M., Rolling Stones e Radiohead. São três bandas que me ensinaram muito sobre como criar uma canção e que expandiram minha mente em relação a tudo que pode ser dito em poucas palavras. Até hoje estão entre minhas bandas favoritas. No Brasil, tem dois artistas que também são tão representativos quanto essas bandas pra mim: Ney Matogrosso e Lenine.

Você consegue definir quais foram as principais referências musicais na produção de Pulsar?

Eu gosto de pensar que esse disco foi realmente uma mistura de todas essas minhas influências. Tanto que acho que isso transparece nas próprias músicas. “O Que Sobrou do Amor” veio de uma época em que eu estava ouvindo muito fado [estilo musical português], e “Agora” surgiu depois de uma temporada de imersão em trip-hop. Pra ajudar, as músicas foram compostas em diferentes fases. O primeiro esboço de “Todavia” foi escrito há uns sete anos, enquanto “Bom Dia” veio pouco tempo antes das gravações começarem. O disco tem ecos de Beatles, de hard rock, de música erudita, de blues, de pós-punk… Procurei não me restringir de maneira nenhuma em prol de uma unidade de estilos, apenas deixei as músicas chegarem onde deviam chegar.

Como tem sido a receptividade a Pulsar

Apesar de o disco não ter ido muito longe até o momento, tenho ouvido praticamente só elogios. Todas as resenhas que li foram excelentes e as pessoas vêm sendo muito generosas. Ainda quero levar esse disco adiante por um bom tempo, então espero que as reações continuem assim!

Comparações com artistas (ou bandas) mais conhecidos te incomodam?

Não. Acho normal ter que encarar rótulos e comparações. Em alguns casos, até fico lisonjeado, como quando falam que minha voz lembra Ney Matogrosso ou Neil Young.

Você é o único letrista? No que as letras se inspiram?

O disco tem duas parcerias. Uma é a própria faixa “Pulsar”, que escrevi com uma amiga da faculdade, Janaína Gonçalves. E em “O Que Sobrou do Amor”, me baseei num texto de outra amiga, Leila dos Santos. Um caso que gosto de citar é “Vão”, a última música. Por mais engraçado que pareça, aquela primeira frase é verídica! Em 2009, fui empurrado enquanto tentava sair de um trem lotado e caí no vão da plataforma logo antes de as portas fecharem. Não me machuquei muito, mas o susto foi grande. Pouco tempo depois, sofri uma tentativa de assalto, o que só piorou aquela sensação de fragilidade que eu já vinha sentindo. Lembro que em um daqueles dias escrevi num papel, sem pensar: “antes de partir daqui, cuidado com o vão”.  Acho que esse processo acaba valendo pra todas as minhas canções, de uma maneira ou de outra. Procuro sempre ouvir meu inconsciente, aquelas frases que surgem na cabeça do nada e que normalmente as pessoas ignoram. Tento anotá-las sempre. Acho que o inconsciente é nossa melhor fonte de energia criativa. No meu caso, me sinto mais confortável usando essa energia do que tentando criar algo de maneira forçada.

Foto: Ricardo Bassetti

Comente sobre as parcerias e os músicos que estiveram com você em Pulsar.

Um dos convidados foi Pedro Jóia, um violonista português que já tocou com Ney Matogrosso. Simplesmente um dos maiores violonistas de fado do mundo, virtuoso, impressionante. Entrei em contato com ele na cara de pau, por uma página do Facebook, quando descobri que na semana seguinte ele estaria em turnê no Brasil. Perguntei se ele gravaria violões em “O Que Sobrou do Amor”. O que me surpreendeu mais foi que ele aceitou! Três dias depois fomos pro estúdio e tive que segurar o choro enquanto ele criava um arranjo ali, na minha frente. Ainda me convidou para ir ao show dele, comprei seu CD e ele autografou: “Ao Guilherme, companheiro de música”. Até hoje me comovo quando ouço a gravação. E claro, Cida Moreira, minha amiga e antiga professora de canto, participou de “Vão”. Cida foi a pessoa que me levou a dar o pontapé inicial no disco. Em novembro de 2010, fui à uma festa na casa dela e comentei que estava pensando em gravar um disco. Na hora ela disse que me dava a maior força. Um mês depois, prometi pra mim mesmo que faria esse projeto acontecer. Foi muito simbólico e emocionante ter a voz dela na faixa final. Ainda contei com alguns grandes amigos que toparam me ajudar nas gravações: Luciano Montesanti nas guitarras, Nivaldo Maciel e Raphael Manfré nos baixos e Waldner Fernandez na bateria. O Luciano fez parte do Guillotin, já o conheço há uns bons anos. É um grande músico, compôs todos os solos do disco.

Comente sobre sua ex-banda, a Guillotin, e o que você levou dela para a fase solo atual?

O Guillotin existiu por quase dois anos. Foi a minha primeira banda séria de música autoral, apesar de até então eu ter apenas material em inglês. Aprendi muito a trabalhar arranjos em grupo para as canções, buscando criar uma espécie de consenso, numa época em que eu ainda era muito arrogante e reservado em relação a minha música. Com o tempo fui mudando de postura, e na época que se seguiu eu passei a tentar ser mais colaborativo como músico. Tanto que agora, com esses novos músicos, assumi uma postura mais aberta, buscando aceitar sugestões, dando espaço para que todos coloquem algo de si, mesmo sendo composições minhas. Acho uma postura saudável a seguir. Talvez este seja o maior legado do Guillotin na minha vida. Sem contar que a banda me trouxe alguns bons amigos.

Você adotou o mesmo princípio do “pague quanto quiser por minha música” do Radiohead, por quê?

Penso que a desvalorização da música como bem material, na forma de fonograma, não tem mais volta desde que a internet virou parte essencial da nossa vida. Então nós artistas temos que nos adequar e entender que não há mais como querer vender discos e ter isso como base de lucro, porque as pessoas não precisam mais do disco. Basta baixar ou ouvir por streaming. Tenho plena consciência de que a simples decisão de lançar um grupo de dez músicas foi, até certo ponto, uma atitude romântica, já que pouquíssimas pessoas ainda se dão o luxo de ouvir um disco integralmente, e as estatísticas já me mostraram isso. Lançar o disco de graça era minha ideia inicial, mas acabei optando pelo método In Rainbows [disco do Radiohead lançado em 2007] mais pela chance de obter algum eventual retorno. Mas de qualquer modo, minha meta com o disco é apenas divulgação, não lucro.

Não é raro que bandas de outras cidades ou estados venham morar em São Paulo para terem mais proximidade com público e casas de shows específicos. Fale um pouco sobre sua perspectiva a respeito da cidade de São Paulo nesse sentido.

Acho que essa idealização de São Paulo como o lugar ideal pras bandas poderem fazer sucesso é um pouco falha, já que, talvez justamente por isso, a cidade parece estar se fechando cada vez mais nesse sentido. As boas casas de show estão cada vez menos numerosas e, por isso, cada vez mais inacessíveis aos artistas de pouco calibre. Os bares estão cada vez menos preocupados com a questão técnica, raramente oferecendo boa estrutura, mas cada vez mais implacáveis com as bandas ao cobrarem mais e mais público. Oportunidades de instituições como o SESC são disputadas a tapa. No final das contas a realidade é um pouco frustrante. Torço para que a cidade evolua mais em sua cultura musical conforme vai virando um conglomerado de bons artistas e bandas de outras regiões. Qualidade não falta, mas falta oportunidade e estrutura.

Comente sobre sua agenda…  Fique à vontade para falar sobre próximos shows e projetos…

No momento só muitos planos e muita preparação. No primeiro semestre, juntei uns amigos músicos e desde então estamos preparando o show de lançamento, que deve acontecer entre outubro e novembro. A base do repertório é o próprio disco, mais algumas releituras e canções que ficaram de fora. Nossa intenção é sair em turnê ao longo do ano que vem. Também estou trabalhando em projetos visuais que envolvem não só o próprio show, mas também alguns vídeos que estão sendo planejados, e uma eventual versão física do disco que pode sair entre o final do ano e o início do ano que vem.

Fora isso, faço parte do Diesel Pop Drink (http://www.facebook.com/dieselpopdrink), uma banda de covers variados, e do Radiohead Cover Brasil (http://www.facebook.com/RadioheadCoverBrasil), que homenageia uma das minhas bandas favoritas. Agora no final do ano também devo participar de um show em homenagem ao R.E.M. com alguns amigos que também são fãs. E além disso tenho planos pra um show solo em homenagem a Neil Young. Sim, pode me chamar de workaholic.

guilhermeeddino.com

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Written by Talita Lima

19/09/2012 at 6:01 PM