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Underground & Indie

“A música precisa de inconsequência”, diz Jonas Schommer, vocalista da banda gaúcha Volar

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Foto: Gustavo Carniel

Jonas Schommer (voz/guitarra), Wagner Muller (baixo) e Juliano Ebeling (bateria) formam a Volar, que um dia foi Lila. Até pouco tempo restrita à pequena cidade natal (Barão/RS), a banda da serra gaúcha prepara seu segundo EP, sucessor de Faço De Conta Que Ainda Existo (2011) e segue rompendo os limites geográficos por amor à música autoral, seja com a presença na Internet e nas redes sociais ou na estrada, efetivamente. Somos O Que Ouvimos voltou a conversar com os gaúchos para saber sobre a nova fase da banda e suas recentes passagens por cidades do Sul e Sudeste do país.

por Talita Lima

Por que a banda deixou de ser Lila e passou a se chamar Volar? E por que escolheram este nome?

Juliano Ebeling: Acho que Lila já não nos agradava mais e havia bandas com nomes semelhantes. Sugeri Volar por ter sonoridade forte e o Wag [Wagner Muller] gostou, depois o Jonas acabou simpatizando com o nome também. Volar significa voar em espanhol.

Jonas Schommer: Lila foi um período importante de reconhecimento de si mesmo e aprendizado.  É duro decidir por alterar o nome, porém nos pareceu inevitável. Acredito sermos sempre náufragos em meio a um mundo que nos permite experimentações e jogos de tentativa e erro. Insistir em um nome que não mais significava para nós, apenas por medo de perder algumas de nossas conquistas com ele seria, no mínimo, estupidez. A decisão foi demorada, gradativa e consensual. Acreditamos na Volar. Acho que ela nos deixa mais livres, com um horizonte mais amplo.

“Precisamos interagir, mobilizar-nos para além do lugar comum,produzir diferença.” – Jonas Schommer 

Em novembro de 2011, quando fizemos nossa primeira entrevista, vocês já diziam que planejavam uma turnê pelo Sul e Sudeste (SC, PR e SP). Agora, em 2012, isso se concretizou, vocês estiveram em todos os estados citados. Como foi?

Juliano: Foi fantástico! Em Santa Catarina, dividimos o palco com a Kura, uma banda local bem legal, foi uma noite muito massa. Em São Paulo, tocamos no Rasgada Coletiva em Sorocaba. Foram dois shows em uma noite, foi uma experiência incrível, muita gente que respira cultura e, de quebra, ainda conhecemos a gurizada da INI, banda que citamos na outra entrevista como uma das que mais admirávamos. No final de setembro, fomos ao Paraná pra tocar junto com a Sonora Coisa e La Vantage, gurizada gente finíssima assim como todos que conhecemos em Sorocaba e Santa Catarina. Viajar sempre é bom pra conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes.

Jonas: Quebramos muitas de nossas barreiras conceituais com relação a viajar pra mais longe, mesmo tendo andado longos km por diversas cidades do Rio Grande do Sul. Tocar em Santa Catarina e São Paulo foi, com certeza, um gás a mais para seguirmos. Ainda é pouco, precisamos confessar. A crença na nossa música e, enfim, na música e na arte como um todo, nos faz pensar que as fronteiras precisam ser deixadas de lado. Em um mundo tão descentralizado não há porque insistirmos somente nos mesmos lugares. Precisamos interagir, mobilizar-nos para além do lugar comum, produzir diferença.

Vocês estão prestes a entrar em estúdio para a gravação do segundo EP. Ele já tem nome? Serão quantas músicas?

Jonas: Esboçamos alguns nomes, mas nada certo. Temos hoje cerca de seis músicas com potencial de gravação. Estamos aguardando juntar mais algum dinheiro, aprovar alguns projetos federais e estaduais dos quais aguardamos contemplação como o “Level: Música Sem Fronteiras” e o “Arte!: Construindo Saberes”, com vistas a disponibilizar ao público um material de primeira.

“Sempre cultuei os primeiros álbuns de artistas, eles têm uma magia que ninguém tira.” – Jonas Schommer 

Como avaliam essa passagem de um EP a outro?

Juliano: Acho que evoluímos muito musicalmente e também trouxemos muitas experiências das viagens.

Jonas: Estamos muito mais descontraídos. “Maduro” não me parece uma boa palavra, pois a música precisa de inconsequência. Colocamos-nos hoje em um lugar de muito mais apropriação de nosso espaço artístico, temos consciência de que somos ouvidos e, por vezes, cortejados, ao mesmo tempo em que aprendemos a lidar com a crítica. Isso, de certo modo, aumenta nossa confiança em nós mesmos, pois é disso que sobrevivemos. Eu, particularmente, sempre cultuei os primeiros álbuns de artistas, eles têm uma magia que ninguém tira: um amadorismo, uma gravação mal feita e uma crueza que, de fato, desaprendemos a ter nos trabalhos seguintes. Acredito estarmos em uma linha tênue entre a sensação de inauguração de um trabalho de uma banda com um novo nome, um novo direcionamento. E esse “calourismo”, mesclado ao processo evolutivo natural, fará desse novo EP um trabalho genuíno. Estamos ansiosos.

Há novos elementos e referências incorporados à sonoridade da banda?

Juliano: Acho que sim. Até porque esse EP terá composições minhas também. Além disso, creio que cada um de nós conheceu novos sons e trouxe novas influências.

Jonas: Estamos mais permissivos entre nós. Não há meta ou medida. Há o desejo. De fato, há um respeito pelos gostos, que sempre perduram bastante divergentes. Por vezes, não é possível entender como seguimos juntos, com tantas distâncias conceituais. E não são somente musicais, são nas formas de entender as coisas, na maneira de conviver com as pessoas. Tocar é um exercício de sobrevivência com e pelo outro. É aí que nos encontramos.

“Estamos vivendo as dores de um sistema antiquado que ainda presa e se alimenta de passado, de reprodução.” – Jonas Schommer

Houve alguma melhora no cenário local em relação a lugares para tocar e melhor aceitação de trabalhos autorais em detrimento das bandas covers?

Juliano: Ainda é difícil, mas de uns tempos pra cá estamos tentando criar um intercâmbio com bandas de outras cidades. Conversamos bastante com a Slow Bricker, de Caxias do Sul, banda muito legal e que está lançando seu primeiro disco agora, essa parceria ainda vai render bons frutos pra cena local.

Jonas: Há a sensação de um período de transição. Essa situação não pode perdurar pra sempre. Vivemos em um hiato cultural justamente em um período de forte ebulição dos incentivos à arte e à cultura tanto no país, como no RS. Há uma ebulição visível na perspectiva cultural e somos parte dela. Estamos vivendo as dores de um sistema antiquado que ainda presa e se alimenta de passado, de reprodução. As políticas públicas e, principalmente, o movimento da sociedade civil do meio artístico sabe do importante momento que estamos vivendo e o quão sem volta ele é. Sinto que o espaço para a arte está sendo criado, a passos de zumbi, mas está sendo criado com, no mínimo, honra. Mesmo assim, a classe musical, principalmente a autoral, é marginalizada e se perde nos cantos, refém do jabá e da manipulação midiática. Acredito que justamente essa descentralização, essa “desterritorialização” que as bandas vêm instituindo mostram uma força que não vai cessar. Estamos cavando espaços e fazemos isso da maneira mais elegante: criando.

Em 2011 comentamos também sobre o uso da Internet como meio de divulgação. De lá pra cá, isso se intensificou?

Juliano: Creio que não mudou muito. Enquanto o Twitter perdeu força, o Facebook se tornou mais importante. Mas a Internet continua sendo muito importante pra gente tanto em divulgação quanto na busca de contatos.

Jonas: A mídia impressa, mesmo tendo um peso tremendo, vem perdendo força, justamente por não ser mais tão prático. Com certeza não abrimos mão dela, assim como da TV e do rádio. O poder de ação delas é inquestionável. Mas percebemos uma democratização do acesso mais ferrenha e instantânea com a Internet. Ela nos move a produzir, a inovar o tempo todo. Ela não é mais um mecanismo de divulgação, ela é sim um instrumento de criação, ela é propulsora de criatividade, por isso é tão cativante. Não funciona mais como funcionava. Um hit não te tira da lama por muito tempo, ele te coloca à vista do grande público. E como até a criação se tornou algo descartável (o que não precisa ser ruim) ainda perduram os trabalhos sérios voltados à cultura, à música, como uma forma de viver e não um instrumento financeiro. Para quem produz, a Internet é totalmente benéfica.

Definam rock preto e branco.

Juliano: Para mim é apenas rock, sem frescuras ou definições.

Jonas: Simplicidade. Expressa “sem voltas”,  “sem delongas”. Espontaneidade. O rock preto e branco é catártico e certeiro. Não é “poser”. O rock preto e branco acontece em um show sem a preocupação de agradar, pois ele alivia por si só. É crer em si mesmo, ser livre, dividir o palco e a guitarra com o público. Tocar com amor e entrega. Esse é o rock preto e branco. Essa é a Volar.

“Evoluímos muito musicalmente e também trouxemos muitas experiências das viagens.” – Juliano Ebeling

Próximos shows?

Juliano: Temos um show no dia 20/10 no Show Bar, em Carlos Barbosa (RS), com os Cartolas, uma banda da qual gostamos muito. Depois, no dia 09/11, tocamos com os amigos da Slow Bricker, no Roça in Rio, festival que nós mesmos organizamos com o objetivo de difundir a música autoral da nossa região, coisa bem difícil por aqui.

Página oficialhttp://bandavolar.blogspot.com.br/

Link relacionado:

Entrevista – Primeira entrevista da banda ao blog, ainda como Lila, em 2011.

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Written by Talita Lima

03/10/2012 às 7:03 PM

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